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O que pretendo com minha música

Ricardo Tacuchian *

Todas as questões de arte são controversas, mas não existe nada mais controverso ou polêmico, para um compositor, do que responder à pergunta “o que pretendo com minha música? Quais são os meus objetivos?” O compositor pode não ter uma resposta cabal à embaraçosa pergunta, mas se esta questão nunca lhe chegou à cabeça, é porque ele, ainda, não é um compositor.

Em 1951, Arthur Honegger publicou um livro de memórias e reflexões filosóficas sobre sua carreira de compositor, Je Suis Compositeur. As inquietações de Honegger ocorrem na mente de todo compositor. Nem sempre existe uma resposta precisa a perguntas do tipo “o que é ser um compositor”, “quando você se reconhece como um compositor” ou “qual é a função de um compositor”.

São questões que variam de época para época e, também, dependem da natureza da música que o artista escreve. Quanto mais maduro é o compositor e quanto mais rica é sua experiência artística, mais estas questões afloram em sua mente, mas sem uma resposta precisa.

Não chego ao exagero de Honegger quando ele afirma que “o primeiro requisito para um compositor é estar morto”. A frase é de efeito irônico e crítico e, de certo modo, exprime a luta do compositor para ser compreendido, ainda em vida, por um determinado público. De Honegger até hoje muitas coisas mudaram, mas muitos questionamentos continuaram os mesmos. Como compositor, espero alcançar meus objetivos ainda vivo.

No passado, o ofício de compositor, ainda que simplificando um pouco, se resumia em … compor. O resto ficava por conta dos editores, empresários, intérpretes, promotores, distribuidores e, mais recentemente, dos produtores fonográficos.

Atualmente, o compositor precisa ficar à frente de toda esta cadeia, direta ou indiretamente. Não basta compor; ele edita, produz, contrata intérpretes, ensaia ou participa dos ensaios, promove a gravação, agiliza a distribuição ou está presente em cada fase deste processo. As casas editoras não editam mais, mas, em compensação, o preço de uma excelente edição eletrônica é muito baixo e com todas as vantagens da tecnologia digital. A tecnologia de gravação também teve seus custos diminuídos com a oferta, pelo mercado, de excelentes programas de computador e aparelhagem portátil de alta qualidade.

Desta forma, o registro da música erudita brasileira tem conseguido sobreviver, no meio de uma enchente avassaladora de mediocridades com espaço comprado na mídia quotidiana. Várias iniciativas editoriais e de gravação estão aparecendo como as da Academia Brasileira de Música, da OSESP e de alguns Programas de Pós-graduação em Música, além das “produções independentes” que mostram, pela sua riqueza, como é falsa a impressão, corrente hoje em dia, que “só o que está na mídia é o que existe”.

Na verdade, o melhor do que acontece no mundo da música brasileira, tanto popular como erudita, está fora da mídia. A internet e seus consentâneos têm sido um dos caminhos para mostrar esta rica produção que, de outra forma, permaneceria em completo ostracismo.

Além de compor, editar, promover, ensaiar, produzir, gravar e distribuir, o compositor ainda precisa levantar fundos no emaranhado das leis de incentivo fiscal. A composição quase que virou um trabalho braçal.

Diante deste quadro, cabe ao compositor questionar-se sobre o que ele pretende alcançar com sua música, depois de vencer todos estes desafios. É uma pergunta básica, sem uma resposta única, mas com muitas respostas que não são excludentes entre si.

Voltemos, deste modo, à questão inicial: “como compositor, o que pretendo alcançar com a minha música?” Sei que nada em arte é absoluto e as respostas oferecidas são todas relativas e expressam apenas as minhas preocupações pessoais como compositor. Para outros compositores estas questões poderão ser irrelevantes.

Primeira resposta: atender a um público que eu escolhi. A proposta estética que está embutida em minha música deve coincidir com a proposta de meu público e, eventualmente, ultrapassá-la. Este suposto público é escolhido por mim. Não é o público que escolhe o artista, mas este, ao assumir uma dada postura musical, está servindo às necessidades estéticas do público que ele escolheu.

O compositor de concerto não produz cultura de massa ou produtos culturais em linha de montagem, mas obras individualizadas, a peça única. Assim, fujo da repetição e procuro, em cada peça que escrevo, algo diferente do que produzi anteriormente, embora possa (e deva) manter um estilo que me é característico. Fujo das receitas prontas, procurando novas propostas. Mas, cuidado: sei que a simples novidade não garante legitimidade ou qualidade à obra de arte.

Segunda resposta: firmar uma diferença entre arte e entretenimento. Embora admita que a arte erudita possua um viés de entretenimento e, ao contrário, que no entretenimento possa haver uma vertente artística, ajo como se as duas categorias, arte e entretenimento, fossem mundos diferentes, obedecendo a leis diferentes. É uma questão de protagonismo ou hierarquia: a ênfase da música comercial é o entretenimento e a da música de concerto é a transmissão de estados estéticos.

A música comercial segue as leis do mercado, sua produção é em série, respeitando o modismo de cada época e usando organizações instrumentais repetitivas e está intimamente ligada a uma mensagem poética popular coloquial e direta. O entretenimento é seu objetivo maior. De outro lado, música de concerto está fora das leis de mercado, sua produção é individualizada, sua instrumentação e sua linguagem são extremamente variadas e sua poética é simbólica ou indizível com palavras mas apenas com sons.

Terceira resposta: pesquisar novas linguagens. A música autêntica deve ser coerente com o pensamento do compositor. Ele deve evitar tanto o modismo como o arcaísmo. A pesquisa de novas linguagens é a permanente preocupação do artista. A arte está em constante mudança porque o verdadeiro artista está sempre se renovando. O mundo também está em permanente mutação e, por isso, o artista vive à procura do diferente. A repetição é a morte da arte. A criação é a sua garantia de vida.

Quarta resposta: preocupar-me com o idiomatismo instrumental. O idiomatismo instrumental e a questão do timbre são fundamentais na concepção da música contemporânea. O compositor pode desenvolver sua linguagem própria, mas sempre respeitando as características idiomáticas da mídia em uso: escrever para piano pensando no piano, para violão pensando no violão, para voz pensando na voz. A ampliação dos recursos idiomáticos de cada instrumento _ também chamada práticas estendidas _ deve respeitar os limites de cada instrumento e da voz. Para passar destes limites existe o recurso da música eletrônica. O destaque do idiomatismo instrumental é uma consequência da ênfase que o timbre adquiriu na expressão da música contemporânea.

Quinta resposta: criar basicamente um discurso e não um meta-discurso. A música deve se impor por si mesma, independentemente de precisar de um meta-discurso que procure explicá-la ou justificá-la. Sem dúvida, ela precisa ser contextualizada, mas não justificada por uma retórica, em detrimento da própria linguagem musical em si.

Sexta resposta: integrar a música com o interesse humano. A música não pode ser uma entidade separada do mundo e da época em que vivemos. Não escrevo música para Marte mas para a Terra e seus habitantes de hoje. Mais ainda, para ouvintes que compartilham, comigo, dos mesmos anseios estéticos. Sua mensagem poética deve ser ligada a este homem e deve levantar questões existenciais, sociais e ecológicas, sempre simbolicamente e nunca de forma folhetinesca.

O que pretendo com minha música? O mundo é muito grande e diversificado e comporta outras respostas sob diferentes pontos de vista. As reflexões expostas acima são apenas confissões do passado de um compositor e suas motivações para continuar compondo no futuro. Com a música consigo falar aquilo que as palavras não dizem.

* Ricardo Tacuchian é maestro e compositor. Dentre os brasileiros atuais, sua obra é uma das mais tocadas e gravadas, tanto no Brasil como no exterior. Seu nome é citado nos principais livros estrangeiros de referência musical. É membro da Academia Brasileira de Música.

 

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