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Mundos distintos, desafios semelhantes

 

*Por Luciana Bento

Música e esporte. Universos apaixonantes, ao mesmo tempo distintos e próximos. Mundos pertencentes a diferentes galáxias, mas ambos recheados de astros e estrelas cercados de sucesso e reconhecimento. Dois ambientes que abrigam verdadeiros titãs em suas habilidades, seres com talentos acima do normal, que emocionam e inspiram uma legião de fãs.

Mas será que as similaridades terminam aí? Basta um olhar um pouco mais cuidadoso para perceber que atletas e músicos de alta performance têm muito mais em comum: trabalhos que envolvem foco, disciplina, planejamento, treino, técnica, cuidados com o corpo, organização.

Quem não conhece a cena de corredores aguardando atentamente o início de uma competição? A tensão da espera pelo estampido do tiro de largada? Ou músicos de uma orquestra elegantemente sentados, em silêncio, focados na batuta do maestro indicando a hora de tocar a primeira nota? Ali, cada milésimo de segundo conta no resultado final. 100% de concentração. Nada, nem uma mosquinha, nem uma lembrança, nenhum sentimento de medo ou ansiedade, nada disso pode atrapalha-los.

Opa… Mas quem falou que atletas e músicos sentem medo ou ansiedade? Afinal eles possuem super poderes, certo? Errado, mas atire a primeira pedra quem nunca pensou assim, ainda que por um breve momento. Existe uma tendência a se imaginar que atletas e músicos nasceram com talentos natos e não precisam se esforçar para fazerem apresentações brilhantes.

Nada mais falso. “Não é fácil controlar o nervosismo”, confessa Luca Kevorkian, que hoje tem 16 anos e toca violino desde os 7 anos de idade. “Em apresentações importantes, quando me sinto nervoso, minhas pernas começam a tremer ou simplesmente tenho um enorme frio na barriga”, conta.

Apesar da pouca idade, Luca tem experiência em concursos musicais, verdadeiras competições (olha mais uma similaridade com o esporte…) que acontecem em diferentes partes do mundo e colocam os artistas à prova, em um curto espaço de tempo.

Um dos mais tradicionais e longevos é o Queen Elisabeth Competition, concurso que acontece na Bélgica desde 1937 e funciona como vitrine para músicos que desejam trilhar carreiras internacionais. Além da visibilidade, prêmios em dinheiro mobilizam centenas de jovens de 18 a 29 anos, de vários países, a participar anualmente da competição.

“Concursos ajudam não só a aprender a lidar com o tal nervosismo, mas também a entender como nosso corpo funciona quando exposto a este tipo de pressão. Cada pessoa reage de uma maneira e é importante que cada um compreenda bem o próprio corpo”, explica Luca, que fez do nervosismo um aliado na hora das competições.

“O que mais me ajuda nessas horas é ter o controle da minha respiração e fazer exercícios para baixar os batimentos cardíacos. A respiração também me ajuda a relaxar e tocar somente com o esforço necessário, sem tensões ou algo do tipo”, ensina.

Bem, mas ele está iniciando a carreira, é normal que se sinta nervoso – alguns podem pensar. Mas não é bem assim. Músicos veteranos, profissionais com carreira sólida como Leo Sousa, percussionista da Orquestra Sinfônica Brasileira, também tem os seus dias de ansiedade e nervosismo.

“Antes de passar para a OSB eu havia feito onze provas, num intervalo de apenas três anos! Esta experiência intensa me ajudou a canalizar o meu nervosismo e entender como tudo funciona. É um quesito que conta muito, mas você também tem o estudo, a disciplina, a técnica, os treinos diários…”, afirma.

Para conter a ansiedade em dias de estreia de espetáculo ou de uma apresentação importante, Leo tem uma receita inusitada: “Eu me preparo muito para o primeiro ensaio geral. Tento chegar pronto, como se fosse o dia do concerto e muitas vezes fico até mais nervoso neste dia do que na apresentação propriamente dita. Até porque se você erra muito em uma orquestra, você atrapalha o trabalho de outras pessoas, não é só você!”, completa.

Personal (anxiety) trainer – ou “treinador pessoal para lidar com a ansiedade”

Existem hoje profissionais especializados em preparar emocional e psicologicamente os músicos para lidar com a ansiedade e nervosismo extremos, sobretudo fora do Brasil. A ideia é não deixar que estes sentimentos – que podem ser controlados – atrapalhem a performance de quem se prepara bem tecnicamente.

Ewerton Thomaz Cândido preferiu contar com a ajuda de um profissional para ajuda-lo nesta empreitada. Com 21 anos, ele toca violino há mais de seis e participou pela primeira vez de uma competição musical no ano passado, sentindo na pele a necessidade de se preparar muito bem para o desafio.

“O que acontece é que às vezes a pessoa estuda tanto que na hora da apresentação ela se preocupa apenas em executar o repertório perfeito”, relata. “Sem dúvida isso é importante, mas se amamos o que fazemos, devemos colocar este sentimento na música e não apenas executar aes notas. Isso vai fazer a diferença no resultado final, com certeza”, aconselha Ewerton.

Ele conta que uma das técnicas que utiliza para se preparar é imaginar o dia da apresentação em detalhes, tintim por tintim. “Geralmente vou para um lugar sozinho, onde possa me concentrar. Neste exercício, sinto a tensão que sentiria na prova e busco pensamentos que me lembrem que estudei para estar ali e estou preparado”, explica.

Um clássico para quem quiser se iniciar em técnicas de relaxamento e controle da ansiedade é o livro The inner game of music, ainda não traduzido para o português. Nele, os autores Barry Green e W. Timothy Gallwey fazem uma analogia direta entre o esporte e a música e apresentam exercícios práticos para lidar com os sentimentos inerentes às duas áreas.

“Tanto as performances esportivas quanto as musicais  acontecem normalmente diante de uma plateia, despertam uma admiração pela excelência com que são executados e ambos, atletas e músicos, atuam sob pressão, precisam lidar com medos e questões do ego”, descrevem os autores.

Para eles, música e esporte trabalham com superação de limites e altos níveis de desempenho – e em ambas áreas, o ponto central é o mesmo: reduzir as interferências mentais que atrapalham a plena expressão do potencial humano.

Ou seja, algo que o ultramaratonista Vladmi Virgílio dos Santos entende bem. Acostumado a disputar provas de longa distância em locais inóspitos como o Deserto do Atacama (Chile), Deserto de Gobi (China), Antártida e Patagônia (Argentina), Vladmi tem uma pesada rotina de treinos e preparação. Com um detalhe: aos 45 anos, ele é completamente cego desde os 34 anos.

Para correr cerca de 250 quilômetros a cada prova, Vladmi precisa estar bem preparado, em plena forma física, motivado e totalmente focado em seu objetivo. “Nunca penso no que ainda falta e sim que consegui superar mais um quilômetro. E assim, de quilômetro em quilômetro, atinjo meu objetivo”, conta.

Vladmi disputa as provas lado a lado com atletas sem qualquer deficiência. “Meu principal competidor sou eu mesmo. Sou muito centrado e focado naquilo que eu quero e quando vou fazer uma prova, pesquiso sobre o lugar, o terreno, a temperatura, a cultura, o povo, a comida… Quando chego em algum lugar, quero me sentir à vontade, não quero ofender ninguém com uma cultura diferente”, explica.

E isso implica em se aclimatar – literalmente – ao local. Vladmi está se preparando para uma prova em Portugal, onde vai percorrer 281 quilômetros, sendo praticamente 190 quilômetros de subida. No treino, a esteira fica no último nível de dificuldade para simular uma subida completamente íngreme.

Na preparação para uma prova na Antártida, Vladmi ficou 55 minutos numa câmara frigorífica a uma temperatura de 25 graus negativos sem roupa especial de proteção. A intenção era simular uma hipotermia, situação extrema, que seria possível ser vivida durante a prova. “Fui ao meu limite, mas preciso preparar muito bem o meu corpo e a minha mente para suportar situações que podem acontecer. Não posso correr o risco de estar despreparado”, conta.

Superação de limites e treinamento pesado fazem parte da rotina de qualquer pessoa que busque excelência naquilo que se propõe a fazer. Músicos e atletas ficam na berlinda ao se expor – muitas vezes planetariamente, como nos Jogos Olímpicos – aos olhos de milhões e até bilhões de pessoas.

Para o público, fica a oportunidade única de se deleitar com o talento e a arte dos mestres da música e do esporte. Agora sabendo que, por trás do talento, há um duro preparo e dedicação extrema.

Foto em destaque: Miriam Jeske

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