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“Formação de professores: gargalo para o ensino”

A revista Brasil de Tuhu foi recebida pelo diretor do Museu Villa Lobos, o compositor e pianista Wagner Tiso, em uma manhã de sol na sede do museu no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Para o bate-papo foi convidado o assessor técnico Luiz Paulo Sampaio, que também opinou sobre os assuntos da entrevista que você confere a seguir.

Por Luciana Bento*

Quais as iniciativas do Museu para difundir a educação musical, um dos pilares do trabalho do maestro Villa-Lobos?

Nosso carro-chefe neste sentido são os concertos didáticos, que existem desde 1985 e já tiveram a participação de milhares de pessoas, sobretudo alunos de escolas públicas.
Jovens instrumentistas, após um treinamento, recebem bolsas para desenvolver recitais comentados sobre a vida e a obra de Villa Lobos. Eles organizam uma programação de acordo com a faixa etária do público, pois recebemos desde crianças de cinco anos até jovens de ensino fundamental e médio.

E, embora os concertos sejam abertos ao público em geral, nosso foco são as escolas, que participam do programa por meio de agendamento feito por nossa equipe. As apresentações musicais são muito interativas e lúdicas – os instrumentistas convidam os jovens a tocar, fazem perguntas, brincadeiras – e temos o cuidado de falar sobre outros compositores também, esclarecer a importância do universo da música popular brasileira, que é muito rico.

E qual a periodicidade dos concertos, quando eles acontecem?

Isso depende muito (risos). Primeiramente do interesse das escolas, do agendamento feito, que varia de uma época para a outra. Nas férias praticamente não fazemos concertos. E depois do repasse de verbas, dos recursos para executá-los, que nem sempre chegam em dia. Mas mesmo com escassez de verba, não deixamos de fazer. É importante manter os concertos.

O Museu chegou a ter um projeto de ensino de música para jovens do Santa Marta (favela na zona Sul do Rio de Janeiro, vizinha ao Museu). Como foi esta experiência?

Este projeto foi idealizado pelo Turíbio Santos, ex-diretor do Museu, foi anterior à minha gestão. Ele já terminou mas foi uma iniciativa pioneira que desencadeou outros projetos como o “Villa Lobinhos” e o “Villa Lobos e as crianças”, que existe até hoje.

Muitos professores hoje do Villa Lobos e as crianças eram alunos lá atrás, destes outros projetos. Isso é importante porque cria um círculo virtuoso de formação.

Qual a importância de iniciativas e projetos voltados para a musicalização, considerando inclusive aqueles de organizações não-governamentais ou iniciativas pessoais, de professores ou músicos?

Considero qualquer iniciativa neste sentido de suma importância. Villa Lobos já dizia que, por meio da musicalização, os jovens se identificam com a cultura do País e adquirem um sentido mais amplo de cidadania.

É preciso difundir mais o gosto e o conhecimento da música no Brasil? Como incentivar uma “consciência musical brasileira” como preconizava Villa-Lobos?

O brasileiro é muito talentoso, criativo. Imagine se tivesse uma orientação, uma educação musical desde cedo? Seríamos uma verdadeira potência. Acho a formação do gosto musical algo fundamental e avalio que os meios de comunicação atrapalham muito quando só veiculam o que vende mais rápido, o que é comercialmente viável a curto prazo. Estão deseducando nossa população.

Acredito que a escola tem um papel importantíssimo nisso, é ela quem vai preparar as crianças e os jovens para apurar o gosto musical, para um entendimento de que a música é algo mais amplo, e não é só diversão e brincadeira o tempo todo.

Aproveitando o gancho, qual a sua opinião sobre a lei da lei 11.769/2008, que prevê o ensino da música em todas as escolas do País?

Tenho minhas críticas à lei, mas independente disso avalio que ela é muito importante. Vem preencher uma lacuna existente desde a ditadura militar – quando o ensino de música nas escolas foi suspenso.

Villa Lobos se envolveu pessoalmente na implementação desta lei, que começou com Getúlio Vargas e previa o canto coral nas escolas. Isso foi importantíssimo e, com a ditadura, tiraram o ensino de música e colocaram o de educação moral e cívica(!)

Eu mesmo cheguei a estudar música na escola, que era administrada por padres canadenses, tínhamos aulas incríveis de canto – inclusive o Milton Nascimento era um dos solistas, veja que luxo!

Com o fim do ensino da música nas escolas perdemos toda uma geração de professores que poderiam ter sido formados… Vejo isso como um dos grandes gargalos para a lei hoje.

Entendo que este não é um trabalho que se faz da noite para o dia, veja países como Áustria, Inglaterra, Hungria, Rússia, Polônia, que têm 400, 500 anos de tradição. Lá eles acham até estranho se você não sabe ler partitura, fui gravar na Rússia certa vez e até o menino que arrumava o estúdio recebeu uma cópia: ele tinha noção de música, sabia onde os músicos se posicionavam, onde ficavam os baixos, como o som deveria ser equalizado para tal música… Uma coisa impressionante.

* Luciana Bento é editora da Revista de Tuhu e diretora da Pauta Positiva Comunicação

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