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Ondas coloridas da Marca Brasil de Tuhu

“Eu me considero sobretudo um poeta”

Do início, quando ainda criança criava poemas na escola, passando pela participação em festivais na adolescência e juventude, até tornar-se um dos mais criativos (e produtivos) compositores brasileiros da atualidade, a trajetória de criação de Pedro Luís é cheia de histórias, parcerias, formações e experiências. 

“Tive várias bandas, incluindo uma de punk rock”, conta revelando as influências amplas e despidas de preconceitos. “Meus irmãos mais velhos me levavam a festas de amigos músicos e shows incríveis, normalmente de graça: de Elizeth Cardoso a MPB 4, de Moreira da Silva e Jards Macalé, de Clementina de Jesus a peças de teatro… Eu ia em tudo o que podia!”, conta.

Em um papo bem humorado, regado a café expresso (“um carioca duplo”, pede), Pedro Luís fala de política, parcerias, processo criativo, desapego musical, composição por encomenda, autoria de canções que fizeram sucesso em outras vozes e de sua frustração por não conseguir dar vazão a todas as ideias que tem. “Está tudo devidamente registrado no computador, cadernos, secretárias eletrônicas, guardanapos… Quem sabe um dia consigo revisitar tudo?”…

 Por Luciana Bento

Você é um dos mais produtivos compositores na ativa no País. Conte um pouco do seu processo de criação, como você encaixa a composição na sua rotina.

Meu processo é absolutamente caótico. Eu crio no caos, ele me ajuda. Começo a compor no violão, às vezes já gravando, vou pra sala, digito uma parte da letra, escrevo outra parte à mão, volto pro quarto, dou um tempo, toco um pouco, vou me espalhando pela casa… Isso acontece muito. Preciso de solidão, de tempo, de espaço.

Mas hoje eu já consigo me dedicar diariamente a alguma atividade relacionada à música que, no final, são ingredientes para as minhas composições. Seja compondo mesmo, seja tocando, seja ouvindo músicas novas, antigas, criando referências… São rotinas diversas, múltiplas, sem uma regra, mas são rotinas que funcionam bem pra mim (risos!).

 E como é compor por encomenda, já que além das canções autorais, você assinou trilhas de minisséries, teatro e cinema… Como lidar com prazos de entrega, temas definidos, expectativas…

Eu adoro! Encomenda e prazo pra mim são ingredientes fundamentais, me ajudam a organizar ideias, são importantes pra eu entregar uma música boa. Claro que tem a ver com quem encomendou, se são artistas que eu admiro, se a fonte é bacana, se a coisa me instiga.

Fui diretor musical da minissérie “As Brasileiras”, o trabalho foi todo sob encomenda, fiquei buscando a música certa mas ela veio de uma vez, de forma inusitada, num deslocamento de avião. Peguei o celular e gravei ali. É uma ideia simples, mas eficaz, serviu para aquele propósito, isso é o mais importante: que a música se encaixe lindamente naquele objetivo a que se propõe.

E a composição em parceria? Você tem vários parceiros musicais, como é esta relação?

O encontro com parceiros mudou todo o meu status como compositor. Ele aconteceu quando fui morar em São Paulo, tocando em uma peça dirigida pelo Hamilton Vaz Pereira. Ali conheci músicos que, diferente de mim, tinham estudado e este contato me trouxe mais formação e informação musical.

Até então eu compunha sozinho, em outra dinâmica. Quando você compõe em parceria, entra a negociação. É um encontro, praticamente um striptease, você tem que se despir, se mostrar pro outro, chegar num acordo. É um balé, tem toda uma relação, uma sedução, uma aproximação, é quase um sexo (risos!).

Você disse que em São Paulo encontrou músicos que haviam estudado formalmente e que isso fez diferença pra você. Por que?

Tive dois problemas com estudo de música: um pouco de preguiça e um pouco de reserva. Era como se o estudo fosse macular a minha criatividade, comprometer a minha espontaneidade, que eu sempre achei que fosse minha qualidade principal como criador. Hoje em dia eu acho isso uma bobagem, mas foi como aconteceu comigo.

Mesmo assim, da infância até a juventude eu tive um pouco de aula de música no Pedro II e um contato mais efetivo com o aprendizado técnico no Cobra Coral um grupo absolutamente original do qual fiz parte. O Marcos Leite era o diretor e fazia a gente ter aulas de teoria, percepção, história da música, canto, corpo… Com o tempo fui ligando os pontos do meu aprendizado empírico com as questões teóricas e acho que foi dando certo.

Mas algumas das coisas mais bacanas e interessantes que eu fiz, as duas músicas mais bem acabadas, foram feitas na absoluta ignorância intelectual. Elas são muito interessantes poética e melodicamente, mas não tem formalidade musical nenhuma.

E quais são?

“Parte Coração” e “Seresta”, que é inédita em gravações oficiais, só toquei ao vivo em um festival em Portugal. Ah, e tem “Fazer o que?”, que tem uma história interessante.

Fiz uma cavalgada incrível com um grande amigo, o Zé Antônio. Na época eu só tinha andado a cavalo quando criança, na rua Xavier de Brito na Tijuca (risos!). Ele me convidou para fazer uma cavalgada de Barbacena até Antônio Carlos, em Minas e eu, totalmente abusado, topei! A cavalgada me rendeu bolhas na bunda por algumas semanas, imagina… foram 15 quilômetros de ida e 15 quilômetros de volta. Mas valeu a pena, fiquei encantado com aquilo, era uma cavalgada coletiva, com um grupo de cavaleiros, parando em povoados pelo caminho.

Voltando desta experiência incrível, na rodoviária de Barbacena, esperando o ônibus pra voltar pra casa, eu escrevi – na verdade praticamente recebi – a canção “Fazer o que?”, um coco meio repente onde eu conto como aquela cavalgada salvou minha vida, como descobri que a música seria mesmo o meu caminho. É uma canção intrincada, mas que saiu muito espontaneamente. É o exemplo máximo da espontaneidade que não se mexe. Mas não é regra. Às vezes a ideia sai pronta, mas já não tenho pudor de mexer, mudar uma palavra, melhorar, lapidar…

É meio que o trabalho do poeta. Na verdade a poesia é o meu principal viés de expressão, minhas cartas sempre foram muito poéticas, me considero mais um poeta do que qualquer outra coisa. A música caiu nas minhas mãos como vitrine para disseminar e expressar a minha poesia.

Você já formou e participou de muitas bandas, grupos, formações, estilos diferentes… O sucesso mais amplo veio com A Parede, né? Mas antes disso você teve banda de punk rock (a Urge), participou de festivais com o Cobra Coral e outros grupos, tocou em teatro com a Paris 400, participou do Boato, que foi um grupo de poetas formado nos pilotis da PUC do Rio… Isso sem falar do megassucesso do Monobloco…

Já fui criticado por isso. Quando a Parede surgiu, recebi críticas de um jornalista de São Paulo que disse que eu era um blefe, que ficava surfando nas ondas do momento, do que estava fazendo sucesso. Nem preciso dizer que não dei a mínima. Faço da minha música o que eu quiser. Sou antigo, minha historia é longa (risos!).

A música sempre fez parte da minha vida, desde garoto. O violão sempre esteve comigo, sempre foi o meu parceiraço – além de uma grande ferramenta de sedução, de comunicação, de sociabilização, de encantamento. Ele te ajuda a criar uma interface com as pessoas, a música, a poesia… Aliás, é por meio delas que a gente vai se salvar deste momento obscuro que, não só o Brasil, mas o mundo vive.

E como você está vendo este momento? Você sempre compôs canções que retratam, de alguma forma, a realidade política, as mazelas sociais…

Há uma onda conservadora tomando conta do mundo, não há dúvida… Eu gostaria que minhas música que tivessem o grito do incômodo já não fossem atuais, mas infelizmente são. Algumas que escrevi para a realidade da ditadura militar são tristemente atuais.

Durante muito tempo eu reservei boa parte da minha obra pra tocar nas questões sociais, não porque me sinta obrigado a fazer isso, mas sim instigado e inspirado por isso. Acho que quando você tem uma voz artística as pessoas esperam de você um posicionamento e ele pode fazer a diferença na reflexão das pessoas em determinado assunto.

Pra terminar, seu mais recente trabalho, “Aposto”, é justamente uma espécie de reapropriação das canções de sua autoria . No show você se apresenta praticamente sozinho no palco cantando músicas suas que fizeram sucesso nas vozes de outros intérpretes. Muitas que as pessoas nem sabiam que eram suas…

Quando você faz uma parceria ou entrega uma música para um intérprete, você precisa de uma certa dose de desapego. Vou dar um exemplo de composição em parceria: quando mandei a letra de Quarto Horizonte pro Lenine musicar, pensei em uma levada pop, embora não tenha falado nada pra ele, achei que a letra combinaria com aquele pop delicioso que o Lenine faz. Mas ele me devolveu um samba de velho, uma coisa meio Nelson Cavaquinho, ficou incrível, uma maravilha, mas totalmente diferente do que eu tinha imaginado. Às vezes você entrega a letra, pensa em uma melodia, mas volta outra coisa completamente diferente. É um desapego 360 graus!

O Aposto é justamente esta brincadeira, de dar minha leitura a canções que fizeram sucesso na voz de outras pessoas. Tem um pouco de vaidade nisso, um pouco de orgulho do que foi feito, mas também é um desafio revisitar minhas próprias canções – que deram super certo na voz de outros – e oferecer versões que possam ser tão representativas quanto as interpretações originais. Fora que defendo a harmonia e o canto sozinho no palco. Estou há tanto tempo protegido por coletivos incríveis como a Parede e o Monobloco, que ficar ali sozinho me tira totalmente da zona de conforto. Mas dou meu jeito.

 

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