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Ondas coloridas da Marca Brasil de Tuhu

Experiências bem-sucedidas no País

*Por Luciana Bento

Foto: Marcos Bizzotto 

 Conheça iniciativas de musicalização que acontecem em locais improváveis, funcionam sem a estrutura ideal, atendem jovens que nunca viram um instrumento na vida e que – contra todas as expectativas – dão (muito) certo.

 Sim, o Poder Público precisa dar condições para que a lei que prevê o ensino de música nas escolas seja efetivamente implementada. Mas várias iniciativas de musicalização e democratização do acesso fazem e acontecem pelo Brasil afora, mesmo sem as condições ideais para isso.

 A professora Lilian Neves Leite que o diga. Professora de música há 25 anos, seu único “instrumento” para dar aulas na Escola Municipal Brigadeiro Eduardo Gomes era a voz. Isso mesmo: nenhum violão, teclado, bateria, flauta ou instrumento de percussão e uma sala de aula com 40 alunos. Deu certo.

Você, como eu, deve estar se perguntando: como ela fez isso? Simples. Com muita vontade, criatividade e aposta em parcerias. A falta de instrumentos foi superada com a confecção de platinelas de cabos de vassoura, chocalhos de lata, reco-recos de bambu, percussões de coco…

E dá-lhe oficinas de construção de instrumentos fazendo parte das aulas, envolvendo alunos, pais e outros professores – que acabaram fazendo uma “vaquinha” para a compra de vinte metalofones (instrumento de percussão).

A partir daí, apresentações dos alunos se tornaram a vitrine que faltava para que algumas doações chegassem – uma delas, do Rotary Club, transformou um teclado de última geração em mais vinte metalofones. “Era importante cada aluno ter um instrumento para treinar e aprender em sala de aula e por isso preferimos trocar o teclado pelos metalofones”, argumenta a professora Lilian.

Hoje as aulas contam com vários instrumentos. Flautas, caixas, liras e um antigo teclado fazem parte do repertório das turmas, graças ao apoio da direção da escola, que aposta na inclusão do ensino de música no currículo.

Diferença no território

Em outras iniciativas, a escola é parceira de um projeto externo mas que impacta no aprendizado em sala de aula e faz a diferença na vida de seus alunos. É o caso da Orquestra Criança Cidadã, que existe há oito anos na favela do Coque em Recife.

Em um território com índices baixíssimos de desenvolvimento econômico e qualidade de vida, jovens e crianças que participam do projeto atingem resultados dignos das melhores escolas do estado.

Não é à toa que nada menos do que seis jovens integrantes da orquestra foram aprovados no último vestibular para Música da Universidade Federal de Pernambuco. Orgulho que não é disfarçado pelo coordenador pedagógico da Orquestra, Aldir Teodózio.

“O poder de transformação do projeto é extraordinário”, diz. “Apesar dos jovens inscritos nunca terem sequer chegado perto de um instrumento profissional, eles se familiarizam com eles em pouco tempo”.

A Orquestra Criança Cidadã atende hoje 220 crianças e jovens que recebem aulas de informática e inglês, além de reforço escolar, apoio psicológico, plano de saúde e três refeições diárias – o que faz com que a iniciativa se assuma como um projeto social.

“Não podemos fugir disto. A Orquestra transforma a vida da comunidade, não só dos alunos como de suas famílias. Quando estes jovens teriam a oportunidade de viajar para a Europa e ter contato com grandes autoridades mundiais?”, questiona.

Aldir se refere às turnês internacionais e à apresentação que a orquestra fez para ninguém menos do que o Papa Francisco, em outubro do ano passado. Mais um motivo de orgulho – que ninguém tenta disfarçar.

Temporada na Sala São Paulo

Também com ares de projeto social e formando músicos de alto nível, está o Instituto Baccarelli – cuja sede fica na favela de Heliópolis, em São Paulo. Com apresentações em escolas públicas, recitais e aulas abertas, apresentações em espaços comunitários e visitas agendadas para conhecer o projeto, o Instituto tem como foco estreitar os laços com os moradores da região.

Mas a aproximação não para por aí, como faz questão de frisar o diretor executivo do Instituto, Edilson Ventureli. Encontros com diretores e professores das escolas de Heliópolis acontecem duas vezes por ano, ocasião em que informações são trocadas e o projeto recebe o retorno sobre como suas ações estão impactando a vida dos alunos.

Atendendo hoje mais de 1300 crianças e jovens, o Instituto tem três projetos de musicalização e ensino da música: o Coral da Gente, que recebe crianças a partir de 4 anos, a Orquestra do Amanhã, que acolhe os alunos que já receberam a primeira formação, e a Orquestra Sinfônica Heliópolis, com músicos profissionais que recebem bolsa auxílio para exercer suas atividades e que há quatro anos se apresenta em temporadas na luxuosa Sala São Paulo.

“Partimos do pressuposto de que todos somos ricos em dons e talentos”, avalia Edilson. “O que fazemos aqui é apostar na arte como ferramenta de ampliação da autoestima destes meninos e meninas. Não há nada mais gratificante do que ver os moradores de Heliópolis indo aos concertos da Sala São Paulo para assistir aos seus filhos se apresentando lá na frente”, diz.

E quando a orquestra resolve se aproximar da comunidade e quebrar alguns mitos relacionados à música clássica e erudita? É o que resolveu conferir a Orquestra Filarmônica de Belo Horizonte, que tem desenvolvido várias ações educativas paralelas às apresentações, ensaios e recitais.

“Todo ano realizamos oito concertos didáticos para alunos de escolas públicas, em sua maioria”, explica Marcos Souza, diretor de produção musical da Filarmônica. “Mas antes, graduandos de Música da Universidade Estadual de Minas Gerais visitam as escolas, convidam para o concerto e dão noções básicas de como funciona uma orquestra: instrumentos, naipes, compositores, obras, como se comportar em uma apresentação…”.

E além das apresentações nas escolas, turnês regionais são realizadas pelo interior do estado, com concertos em praças públicas onde milhares de pessoas se reúnem para ver uma orquestra. Muitas delas pela primeira vez.

O contato tête-a-tête com o público estimulou um novo passo: publicações voltadas para diferentes faixas etárias (crianças, adolescentes e para todos). Os livros, disponíveis em pdf, desmistificam o universo das orquestras sinfônicas e traduzem, em linguagem acessível, conceitos básicos, as diferentes funções dos músicos, os instrumentos utilizados, o repertório executado e até como aproveitar melhor a experiência de ir a um concerto. (sugiro colocarmos o link para as publicações aqui!)

Sejam dentro de salas de aula, sejam a partir de projetos e iniciativas independentes, sejam vinculadas a instituições ou ligadas a orquestras, boas práticas estão aí para provar o poder de transformação da música e inspirar novas experiências pelos quatro cantos do País.

* Luciana Bento é editora da Revista de Tuhu e diretora da Pauta Positiva Comunicação

 

 

 

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