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Ondas coloridas da Marca Brasil de Tuhu

“Criança se não gosta, fala na lata”

Se existe algo que ajuda a definir este artista de múltiplos interesses, ela é a versatilidade. Tim Rescala dirige, escreve, compõe, atua, apresenta, rege, produz, roteiriza, cria, arranja, toca.

Ao longo de sua carreira de quase 40 anos, ganhou diversos prêmios – incluindo uma indicação ao Grammy -, se apresentou em palcos de diferentes países, compôs óperas para crianças e trilhas sonoras para minisséries de TV e novelas, entre elas Hoje é dia de Maria, Capitu, Meu pedacinho de chão e Sítio do Picapau Amarelo, além da participação no humorístico Zorra Total.

“Meu interesse é por coisas diversas, gosto de desafios, de experiências novas”, explica. “Aquilo que fiz, já fiz. Posso até fazer de novo, mas já fiz. O que me instiga é realizar algo que nunca tive oportunidade”, reforça, sentado em seu estúdio no bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

E é esta vontade de criar coisas novas que aproximou Tim do programa Brasil de Tuhu – para o qual já gravou um podcast sobre Radamés Gnatalli e hoje faz a direção cênica do novo formato dos Concertos Didáticos que serão apresentados em seis estados do Brasil a partir de agosto.

Nesta entrevista exclusiva para a Revista Tuhu, Tim fala de tudo um pouco: qualidade musical, papel dos pais na formação dos filhos, composição de trilhas para TV, acesso à cultura e, claro, da experiência de participar da reformulação dos concertos didáticos.

Por Luciana Bento

Vamos direto ao ponto: criança gosta de música clássica? 

Não tenho a menor dúvida. Ela gosta de música clássica como gosta de qualquer outro estilo. Ela não tem o preconceito que o adulto tem, não tem repertório formado, nem critérios pré-estabelecidos. Ou seja, ela não tem motivos para não gostar.

Além disso a criança tem mais capacidade de absorver coisas novas. À medida que a gente vai ficando adulto, o ouvido vai cansando, vamos selecionando o que gostamos e dizendo: “ah, eu só gosto de música clássica, meu negócio é ir a concertos…”. Ou “só gosto de rock e acho funk horrível…”. Ou seja, as pessoas vão podando sua própria disponibilidade para experiências novas.

Uma criança novinha não tem qualquer problema com música contemporânea – coisa que pode ser difícil para um adulto, por exemplo. Ela não tem juízo de valor, ela gosta na medida em que aquilo é estimulante e a toca de alguma forma.

E como cativar a criança com música de qualidade? Aliás, como fazer isso sem estigmatizar alguns gêneros musicais? 

Não é o estilo que define se a música é de qualidade ou não. Música pode ser de qualidade sendo de qualquer estilo. Na minha concepção, música boa é aquela que tem elementos e estímulos que tornam a sua apreciação interessante.

É claro que algo que se repete do início ao fim, é monótono, em vinte segundos você desvenda o será apresentado, não te instiga, não te captura, não pode ter qualidade. Pode entreter, pode se propor a outras coisas, mas não é música de qualidade. E isso independe de ser samba, funk, forró, rock, MPB ou bossa nova. O estilo não faz a menor diferença. Você pode pegar um funk e fazer algo muito interessante.

Então o segredo seria variar também os gêneros musicais apresentados à criança? 

O ponto é este: oferecer alternativas, variar o cardápio, proporcionar o acesso, mostrar coisas novas… Muitas vezes a forma de chegar a uma pessoa que costuma ouvir músicas, digamos, menos interessantes, é mostrar algo mais sofisticado, mais instigante, dentro do próprio gênero musical que ela conhece e gosta. Por que não?

E qual seria o papel dos pais neste sentido?

Mesmo que os pais não tenham formação musical, eles podem formar seu filho de outra maneira. Quem tem este desejo e está interessado, vai arrumar um jeito, vai buscar alternativas. As dificuldades a gente já conhece, temos que buscar as soluções.

Muitas vezes a criança está ouvindo algo desinteressante e os pais justificam dizendo: “ah, ela gosta…”. Quem gosta na verdade são os pais! Pra mim, isso demonstra uma certa preguiça em apresentar coisas novas pros filhos, em instiga-los musicalmente.

Você já fez ópera par crianças, gênero que é considerado difícil em qualquer faixa etária… Conte um pouco desta experiência. 

Como eu disse, estimular a criança, dar uma cardápio variado, é um grande caminho. Quando fiz a minha primeira ópera, “Orquestra dos Sonhos”, em 1998, experimentei vários estilos musicais dentro da dramaturgia.

Então, no mesmo espetáculo tem música dodecafônica, atonal livre, minimalista, contemporânea… Todas no contexto, identificadas com determinados personagens e situações. Na época não faltou quem dissesse que eu era maluco, que as crianças não iam entender nada (risos!). Mas foi o contrário: as crianças saíam felicíssimas do teatro, brincando de canto falado, imitando os cantores… Às vezes quem tem dificuldade para ouvir ópera são os adultos, que acham muito complexa!

Tudo depende da forma que a música é apresentada… 

Sim, para criança a apresentação tem que ser lúdica. Esta é para mim a principal diferença em relação ao adulto. A música tem que ser leve, ser uma brincadeira, um jogo, um momento divertido.

Quer outro exemplo? Por quatro anos apresentei um concerto para juventude no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, produzido pelo Conservatório Brasileiro de Música. Este projeto às vezes se apresentava nas lonas culturais, em bairros da periferia do Rio de Janeiro.

Uma vez, houve a apresentação de um grupo alemão de percussão de música contemporânea. Eu pensei: “como vai ser a reação do público, que nunca ouviu algo parecido?”. Pra minha surpresa o espetáculo chegou fácil até a plateia… Sabe por que? Porque eles nunca tinham visto nada igual aquilo, então podia chamar de qualquer coisa, de música clássica, contemporânea, o que quer que fosse. O segredo foi que a música tocou as crianças, se comunicou, as sensibilizou…

Acho que é necessária uma certa desmistificação da música, não? 

Isso! Às vezes você dizer que é música clássica já intimida, a pessoa pensa: “Ih, não tenho roupa pra ir…!” (risos!). Tem uma formalidade agregada que afasta as pessoas. Não sou contra isso, mas não precisa ser sempre e nem em todas as situações.

Muitas manifestações que hoje chamamos de música de concerto, erudita, eram essencialmente populares. Shakespeare sempre foi popular! As pessoas vaiavam no meio das apresentações, tacavam tomate, aplaudiam, xingavam no meio da peça. Imagina hoje…

Você trouxe um pouco deste desafio para sua carreira, não? Quando você compõe para minisséries, novelas, programas humorísticos… Não seria uma forma de popularizar o acesso a um tipo de música mais sofisticada? 

Meu interesse é por coisas diversas e fui aceitando desafios ao longo da vida. No caso da música para TV, acho que é interessante o fato de ser para milhões de pessoas. Na novela Velho Chico incluímos música sinfônica e as pessoas reconheciam, ouviam, gostavam… Tudo que faço, tento fazer da melhor forma possível. Acho que é preciso de desvencilhar de preconceitos, arriscar algo novo e realizar o melhor onde quer que você esteja. Ou você faz isso, ou você só lamenta.

E o que te instiga em trabalhar com crianças?

Eu acho um público muito interessante, pela sinceridade delas. E acho também um muito difícil porque elas dizem se gostaram ou não, muitas vezes na lata (risos!). Minha filha mesmo fala quando não gosta e eu tenho que ouvir e respeitar, afinal é o meu público.

Por outro lado, é algo muito sério, uma ação de muita responsabilidade, não dá pra fazer qualquer coisa. Eu percebo a importância de trabalhar com crianças não só pelo fato de ter filhos, mas para o longo da vida, para a formação dela.

E como é com suas filhas (Isabela, de 21 anos, e Luíza, de nove anos)? Elas se interessam por música?

Elas acabam tendo um ambiente muito estimulante em casa e isso facilita muito. Quando a Isabela tinha sete ela ia comigo aos concertos da juventude que eu apresentava e ficava correndo na plateia, convivendo com os músicos. Tudo isso proporciona um ambiente lúdico e acaba influenciando no gosto, entrando no tal “cardápio”. A Luiza é a mesma coisa, estuda piano, tem interesse… O mais legal é ver que este estímulo dá certo, você não precisa obrigar ninguém a nada.

Para finalizar, fale um pouco da experiência de fazer a direção cênica do novo formato dos concertos didáticos do programa Brasil de Tuhu…

Eu já tinha produzido o podcast do Radamés Gnatalli, já conhecia o programa, sabia do trabalho que está sendo feito. Quando a Carla Rincón (coordenadora pedagógica do programa Brasil de Tuhu) me convidou para fazer a direção cênica dos concertos, não tive como recusar. Ela é uma artista que admiro muito, temos convívio musical, ela já executou peças minhas.

Isso em si já te dá segurança grande, pois são pessoas sérias envolvidas em uma causa importante. Se todos os trabalhos fossem assim, conciliando o prazer com a qualidade, seria o ideal.

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