Acessibilidade > Ativar Alto Contraste W3C
Ondas coloridas da Marca Brasil de Tuhu

“Piso no palco como se fosse a primeira vez”

Por Lilian Dias e Luciana Bento*

Aos 86 anos, Odette Ernest Dias tem uma rotina de fazer inveja a muitos jovens. Além de ensaiar todos os dias – o que não deixa de ser uma revelação surpreendente, já estamos falando de uma das maiores flautistas do País -, ela dá aulas e continua se apresentando pelo Brasil afora. Seu último álbum, Horizontes, foi gravado há apenas três anos, na Igreja do Carraça, no interior de Minas Gerais.

Nascida em Paris, Odette veio para cá aos 20 anos para integrar a Orquestra Sinfônica Brasileira e nunca mais voltou. Aqui se casou, fez família e construiu uma sólida carreira – herdada pelos filhos e netos, já que vários deles são igualmente músicos.

Ela recebeu a Revista Brasil de Tuhu em uma das últimas manhãs de outono, em seu amplo apartamento em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, para falar de música, carreira e a vida na terceira idade. O resultado? Este agradável papo que você confere a seguir.

Como surgiu o seu interesse pela música? Vir para o Brasil estava em seus planos?

Minha iniciação musical começou dentro de casa. Aos oito anos comecei a estudar piano com uma professora muito boa, que me ensinava de tudo: teoria, prática, dança – é muito parecido com o trabalho que fazemos na ProArte (escola de música, no Rio de Janeiro, onde Odette atuou como professora).

Depois disso comecei a tocar flauta e, logo depois da 2a Guerra, voltei a estudar com um professor que me encorajou a tentar uma vaga no Conservatório de Paris. Só que eu estava decidida a estudar medicina! O Conservatório era muito concorrido e achei que não fosse entrar, mas fui aprovada e fiquei lá por quatro anos.

Mas era um momento complicado, por causa da Guerra o litoral da Europa estava sendo dominado pelos alemães e ninguém podia sair do continente… Quando a guerra terminou, todo mundo queria sair de lá. Eu tive ofertas de várias orquestras e estava quase indo para a Suíça, mas a contratação deu errado pois a cota para estrangeiros havia sido fechada.

Não tinha pensado em vir para o Brasil, mas recebi um convite e acabei ficando por aqui, casando e tendo minha família. Dos meus seis filhos, cinco são músicos e meus netos também seguiram a mesma trilha.

A senhora tem uma vida dedicada à música. Como enxerga o ensino da música antes e hoje, sobretudo nas escolas?

Na minha época era comum as pessoas aprenderem música nas escolas, cantar fazia parte dessa nossa geração. Aqui no Brasil, os jovens estudavam música dentro da escola pública com o sistema do ensino do Vila Lobos, o Guia Prático de Música, composto por músicas tradicionais e folclóricas.

Eu conheci pessoalmente o Villa Lobos. Além de todo seu talento como compositor e maestro, ele tinha esse envolvimento com a educação musical. Foi um projeto muito importante, mas acho que não souberam reconhecer isso. Mudou o governo, acusaram de ser uma política paternalista… Atualmente está tendo uma renovação na música nas escolas, com projetos muito bons, mas ninguém sabe exatamente como fazer, ninguém está seguindo a linha de Villa Lobos.

A senhora nunca deixou de se apresentar e tem feito vários concertos recentemente. Depois de tanto tempo, qual é a sensação de subir ao palco?

Pra mim é sempre como a primeira vez: você sente um frio na barriga, tem um certo estresse… Você nunca abre a porta e entra no palco. Não é simples assim. Você precisa colocar todo o seu conhecimento da música naquele curto momento, sabendo que as pessoas foram ali para te ouvir. É uma responsabilidade, mas é uma emoção.

Mas quando eu entro no palco, só existe aquele momento. A tensão desaparece, você se entrega. É muito especial.

E a senhora tem alguma preparação especial para entrar no palco ou gravar uma música?

Ah, sim! Na véspera eu sei que não posso me dispersar muito, por causa da parte física. Evito beber vinho tinto, que eu adoro, e não posso comer muito antes de tocar, só coisas leves. Procuro descansar, esvaziar a cabeça, faço meditação à noite, evito ficar correndo de um lado para o outro, se não eu me esgoto fisicamente. E, um pouco antes do show, procuro ficar sozinha, é um momento meu.

A senhora imaginava ter uma carreira tão longa e continuar ativa aos 86 anos?

Eu gosto de tocar, não para mostrar que eu estou vencendo problemas de idade, mas porque faz parte da minha vida. E acho que as pessoas que me escutam o fazem pela música e não pelo fato de eu estar na terceira idade – na verdade já estou na quarta idade (risos).

A música para mim é sempre o som e, com a idade, às vezes não sai como eu quero. Estou me referindo à parte física, o som. Então eu tenho que descansar, me recolher um pouco. A parte física era mais fácil quando eu era mais nova, mas a observação hoje é maior.

E tocar em público não é vaidade, nem egocentrismo ou exibicionismo. É um momento de comunicação e prazer. Pra mim é um prazer imenso de poder fazer isso. Eu também estudo muito, procuro sempre ouvir muita música diferente, não somente porque quero me informar, mas porque eu gosto.

Quando eu toco eu sinto uma integração enorme com aquele momento, é uma coisa muito forte. Uma roda de percussão ou uma roda de choro me emociona. Eu faço música porque eu gosto.

A senhora já foi professora em universidades e hoje dá aulas para os mais diversos públicos. O que dizer para uma pessoa com mais de 60 anos, que quer aprender ou reaprender um instrumento? Existe um limite de idade para quem deseja praticar música?

Não existe um aluno igual ao outro, são todos diferentes. Uns tem mais facilidade que outros, cada aula é uma construção, não existe um programa fixo, varia para cada um. E eu sempre toco com os meus alunos nas aulas, é uma coisa que dá resultado.

Mas eu pergunto: por que as pessoas da terceira idade têm que fazer as atividades somente acompanhadas pelas pessoas da mesma idade? Por que não pode ser misturado? Por que não misturar jovens, adultos, idosos? Por que fazer algo específico? Nada na vida é específico. A sociedade tem pessoas de todas as idades e acho que acaba sendo uma espécie de exclusão. A família precisa assumir um pouco mais isso. Tem que haver uma maior integração.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *