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Ondas coloridas da Marca Brasil de Tuhu

Aprendizado sem fronteiras

Vivência Musical Brasil de Tuhu – Ipojuca 2017 | Foto: Marco Bonachela

Por Luciana Bento

É possível ver o som? E aprender música tocando, com os dedos, a partitura? Como sentir as notas musicais? Dançar no silêncio, vibrar no ritmo, perceber uma melodia?

Achou estranho, conversa sem sentido? Hora de mudar conceitos: é assim que muitas pessoas com deficiência apreciam e aprendem música. Para quem enxerga limitações, está na hora de entender que este é um universo de amplas possibilidades.

“A limitação muitas vezes está em quem não compreende a deficiência”, explica a professora Thaís Carneiro, da Escola de Música da Universidade Federal do Pará. “É claro que precisa ter dedicação por parte do professor. Ele precisa querer entender o seu aluno, as suas necessidades, suas dificuldades e talentos. É um desafio, mas esta relação não tem preço”,  define.

Ela sabe do que está falando. Sem qualquer experiência ou capacitação especial para ensinar alunos com deficiência, Thaís recebeu uma aluna cega em sua turma. O que poderia ser um estranhamento, tornou-se um desafio e, logo depois, uma paixão.

Ela buscou conhecimentos, informações, fez cursos, se especializou e hoje coordena o projeto de extensão da Escola de Música da Universidade, que oferece curso de violino para alunos com deficiência visual. “Os cegos geralmente têm um ouvido muito desenvolvido, tem outra percepção dos sons, muito mais sensível. O que precisa fazer é educar este ouvido musicalmente, mas o sentido já vem apurado”, avalia.

Esta relação professor-aluno não é trivial. A aluna Ana Clara dos Santos Maciel, de 21 anos, conta que passou por algumas experiências desestimulantes antes de encontrar educadores que fizeram diferença em sua carreira.  “Estudo violino desde os 12 anos, mas parei e recomecei algumas vezes, por falta de estímulo mesmo”, conta.

“Perdão pelo aparente paradoxo, mas é visível o medo no olhar do professor quando vai ensinar uma pessoa que não enxerga”, explica, com bom-humor, Ana Clara. “Você sente a dúvida no ar: ‘como vou ensinar a condução do arco, o movimento dos dedos pra este aluno’?”. É até compreensível, mas quando um professor acredita em você, vê além da sua limitação, enxerga o seus talento, dá uma motivação enorme, tudo muda”, explica.

Limitações e desafios

As limitações na verdade estão em outros lugares. Se a falta de ferramentas adequadas, muitas vezes caras, é um problema que impacta o ensino de música no Brasil – ela acaba prejudicando ainda mais quando ele é voltado para pessoas com deficiência.

Recursos avançados já foram desenvolvidos e existem no mercado – parte deles gratuitos. Mas nem sempre estas ferramentas chegam às escolas, projetos, ONGs e universidades – embora o amplo acesso das pessoas com deficiência ao ensino seja um direito garantido na Constituição Federal.

A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência tem status de norma constitucional no País e destaca o direito a um sistema educacional inclusivo para todos. Mas, infelizmente, a ampla aplicação deste direito ainda está no papel – o que não significa que existam avanços e conquistas nesta área.

Aplicativos que ensinam música para surdos a partir de imagens e vibração, programas que traduzem partituras para o braile, ferramentas de composição em braile, leitores que transformam textos em voz (para cegos) e que transformam voz em texto (para surdos), instrumentos adaptados para diversos tipos de deficiência, salas especiais para alunos com autismo…

Seja por falta de verba (mesmo recursos tecnológicos gratuitos necessitam de computadores, tablets e celulares com alguma capacidade de memória e processamento para funcionar), seja por não estar no topo das prioridades de gastos de muitas instituições, as ferramentas, instrumentos e ambientes adaptados para os vários tipos e graus de deficiência ainda são um empecilho para o ensino de música para estas pessoas – sobretudo para níveis mais avançados de estudo.

E se hoje a acessibilidade não é regra em ambientes que não são específicos para este público, já existem muitas iniciativas que visam incluir – de forma cada vez mais natural e orgânica – as pessoas com deficiência.

Uma destas iniciativas é o próprio Brasil de Tuhu. O programa tem avançado na oferta de ferramentas e recursos de acessibilidade em seu site, além de promover ações presenciais que visam a inclusão das pessoas com deficiência.

A vivência musical para educadores ministrada por Estuardo Quiñones, músico venezuelano que veio ao Brasil para apresentar técnicas de educação inclusiva utilizada pelo El Sistema, é um exemplo destas ações. (conheça mais sobre o método, clicando aqui)

Na formação que ele ministrou, em 2015, foram apresentadas atividades para crianças com diferentes tipos de deficiência (síndrome de down, deficiências físicas, graus de autismo, deficiência visual e auditiva etc.) com técnicas como musicografia braile e sinos coloridos.

“A inclusão e a acessibilidade são valores para nós”, explica Paula Brandão, diretora da Baluarte Cultura e uma das idealizadoras do programa Brasil de Tuhu. “E estamos sempre em busca de formas de fazer isso, pesquisando novas ferramentas e descobrindo maneiras de incluir cada vez mais pessoas em nossas atividades”, explica.

Com planos de ampliar ainda mais os recursos de acessibilidade oferecidos pelo Brasil de Tuhu, Paula finaliza: “na verdade esperamos chegar o dia em que as ferramentas de inclusão sejam muito básicas e essenciais em qualquer iniciativa. E que ninguém mais precise falar o que está fazendo, já que este seria um padrão. Este é nosso desejo”.

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